Acervo do Merg. Julio Castello Branco
O relato do Príncipe das Astúrias, do Luiz Fernando de Castro Cunha, Arqueólogo Subaquático e Mergulhador da Marinha, acompanhou os trabalhos das pesquisas realizadas em 1986 / 87.
foto : Mergulhador Castello
Estátua do Príncipe das Astúrias,no jardim do Espaço Cultural da Marinha
Mergulhador Profissional Raul Cerqueira, Especializado em naufrágios.
Croquis original de 1986 do naufrágio do Príncipe das Astúrias, desenhado e elaborado por Raul Cerqueira e Equipe de Mergulho
Acervo do Mergulhador Castello
Luiz Octávio de Castro Cunha, atual Arqueólogo Subaquático, Mergulhador Civil da Marinha e o Mergulhador Julio Castello Branco
Acervo: Castello
Estátuas em Buenos Aires
Foto do Mergulhador Julio Castello Branco
Peças retiradas do fundo do mar - Príncipe das Astúrias, a escarradeira policromada com motivos florais encontrada pelo Mergulhadores Castello e Luiz Fernando
Foto: Mergulhador Julio Castello Branco
Peças Arqueólogicas do naufrágio Príncipe das Astúrias, doadas pelos Mergulhadores o Museu da Marinha
O naufrágio do "Príncipe das Astúrias" teve proporções gigantescas: 477 mortos e 144 sobreviventes, entre eles, seis mulheres e duas crianças, além dos mais de 1.000 clandestinos que vinham amontoados nos porões. As águas turbulentas, a forte neblina e a versão de que a Ilha Bela seria um polo magnético, acredita-se que tenham sido as principais causas que provocaram a tragédia. Devido as proporções narradas, o sinistro foi comparado ao "Titanic", afundado quatro anos antes, coincidentemente construído pelo mesmo estaleiro escocês.
O Vapor espanhol tinha 150 metros de comprimento e era o orgulho da Marinha Mercante espanhola.
A primeira exploração sobre o "Príncipe das Astúrias" ocorreu em 1949, quando foram retiradas 200 toneladas de chumbo em lingotes de 50 Kg.
Em seqüência foram efetuadas ainda operações de pesquisas subaquáticas autorizadas pela Marinha, entre as quais esteve presente este narrador, a bordo do Navio Hipocampo (Ex-Caça Minas "Piranhas" da Marinha de Guerra) como fiscal "arqueólogo-mergulhador", acompanhado de um oficial da Marinha a serviço, em missão coordenada pelos mergulhadores profissionais Raul Cerqueira e Julio Cesar Castello Branco, Diretor de Desenvolvimento Comercial da empresa COOPERBRASUB em parceria com a empresa Hernandes Anti-corrosões, em 1986.
Nessa mesma ocasião, mergulhos sucessivos foram realizados durante alguns dias de mar bem agitado e água muito fria, mas mesmo assim foi possível encontrar algumas peças de valor histórico rolando no fundo do mar, impulsionadas pelo forte assoreamento e correntadas do local.
Foram econtrados duas escarradeiras em louça, pequeno vaso fragmentado e também foi localizada a estátua de bronze, fragmentada pelas diversas explosões ocorridas durante tantos resgates - que vinda da Espanha, iria fazer parte do monumento "La Carta Magna y Las Cuatro Regiones Argentinas" em Parque Palermo - Buenos Aires.
Durantes estes dias também se conseguiu acesso à porta do porão onde foram localizados depósitos de metais como estanho, chumbo e pequenas garrafas contendo mercúrio.
Realizei meu primeiro mergulho em dupla com o mergulhador e amigo Castello, mergulhando na proa do Príncipe das Astúrias, Percorremos pelo fundo até a meia-nau, onde encontramos uma escarradeira de louça com belos motivos florais. Em profundidade variando de 17 a 32 metros, com forte correnteza, água muito fria e visibilidade de, no máximo 2 metros, devido à intensa suspensão de material ferroso oriundo do casco em processo de decomposição.
Nessa mesma missão, em outro dia de melhores condições de mergulho, foi elaborado pelo mergulhador Raul Cerqueira o "croquis" do casco soçobrado, obtendo-se todas as informações inerentes a cada compartimento do navio.
Os vários pedidos de exploração e remoção da carga ainda existente foram motivados pela real possibilidade de se encontrar no interior dos destroços, peças de valor histórico datadas do séc. XIX.
Foram facilmente encontradas, em apenas alguns dias de mergulho, embora em condições desfavoráveis, esculturas de bronze, lanternas de bordo em cobre e material de louça, atualmente já restaurados e em exposição no Espaço Cultural da Marinha e no Museu Naval e Oceanográfico do Rio de Janeiro.
Infelizmente as explorações propriamente ditas têm sido feitas muitas vezes clandestinamente, de maneira desordenada, desde 1950, pela ação predatória de mergulhadores amadores e "piratas", assim como as constantes visitas de escolas de mergulho autônomo "avançado", turistas e desportistas que, disfarçados, sempre conseguem carregar pequenas "lembranças" do maior e mais conhecido naufrágio de um transatlântico em águas brasileiras. Tais "lembranças" , possuem muitas vezes real valor histórico e posteriormente são vendidas como "souvenires" em São Sebastião e nas praias da Ilha Bela.
O importante a ser dito é que há uma grande possibilidade de haver ainda material arqueológico no interior dos porões do antigo transatlântico. Tais exploradores, recentemente autorizados, pretendem remover o máximo de componentes metálicos nobres (metais puros) eventualmente encontrados, como: tungstênio, estanho, cromite, fios elétricos de alta tensão, chapas de cobre, chumbo, hélices de bronze de 1 e 2 toneladas, âncoras e correntes de ferro, totalizando aproximadamente mais de 500 toneladas.
Diante do resumo apresentado, cabe a cada um de nós, agora e no futuro, avaliar sua participação direta ou indireta, na preservação desse bem cultural submerso.
Luiz Fernando de Castro Cunha
Arqueólogo Subaquático