O Mergulho
23/07/2009 - 22h59

OPERAÇÕES DE MERGULHO NO NAUFRÁGIO PELO MERGULHADOR E SUPERVISOR: ANTONIO DRUMMOND "T0NEL"

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Mergulhadores Profissionais Raul Cerqueira e Antonio Drummond
Mergulhador Tonel

Rio de Janeiro, 06 de março 2009

"Na madrugada do dia 6 de março de 1916, em pleno baile de carnaval a bordo, com o comandante no salão e um tripulante no timão, de repente um desequilíbrio causado pelo balanço, seguido com um ruído estrondoso de rasgo metálico em numa lage na flor da superficie na ponta da Pirabura , marcavam um instante fatídico nas vidas dos poucos sobreviventes e nas mortes das muitas vítimas deste naufrágio".                       

 Após 34 anos nesta mesma data  “ coincidia o dia do meu nascimento“, e por" ironia do destino" mais 36 anos depois trabalhando, eu e o mergulhador José Pombeiro, minha dupla, mergulhávamos neste mesmo local, só que há uma profundidade mais de 40 metros (popa). E naquele momento, estava também mergulhando em meus pensamentos “imaginando-me há 70 anos atrás”.  Explorávamos, nas penumbras, dentro daqueles destroços submersos, onde seria a sala de máquinas deste navio, e foi quando identifiquei semi-enterrado no lodo, um osso (fêmur). Imaginei, possivelmente dos restos, que seriam de algum tripulante, que naquele momento da tragédia estava no calor infernal dos vapores daquele porão, quando deve ter sido surpreendido por um jato de água fria que fluiu do casco vazado e que pelo choque térmico rachou e explodiu as caldeiras.
Esta explosão dividiu aquele navio a vapor em partes e afundou  em poucos minutos, o que era pouco antes o imponente “Príncipe de Astúrias” com os seus valiosos carregamentos  de carga e seus passageiros na maioria abastados, como indicavam pelas jóias encontradas nos cadáveres, conforme relatos de pescadores (Caiçaras) da Ilha. 

Estes passageiros e os tripulantes vindos da Espanha e da Europa escaparam da "1ª Grande Guerra Mundial e da Gripe Espanhola” e muitos, morreram ali próximos nas beiras das "Praias da Ilha Bela”, no almejado "Novo Mundo das Américas"      
Estávamos ali resgatando com imagens e pesquisas para futuros trabalhos de reconhecimentos arqueológicos, a história abruptamente interrompida daquela embarcação, com os últimos momentos de suas vítimas, dos ambientes e utensílios luxuosos e cotidianos, e das cargas comerciais e históricas que o tempo, os intempéries do mar, as explorações e piratarias submarinas haviam destroçado e espoliado durante anos.

Para mim tudo começou numa tarde do inicio do ano de 1986, na chegada e apresentação deste  projeto pelo meu companheiro e amigo mergulhador  Julio Castello Branco, na sede do nosso futuro sindicato na Urca, ainda uma associação da qual eu era o diretor de operações.   Foi o inicio de um desafio marcante, conforme os resultados demonstram neste Site. Só bem mais tarde nas pesquisas constatei nas datas estas particulares coincidências cronológicas.


Na época esta proposta surgiu como um incentivo para aquele pequeno grupo de fundadores e idealistas da  Associação Profissional de Atividades  Subaquáticas (APAS futuro sindicato Sintasa). Isto porque passávamos por tempos difíceis devido as normas e regulamentações que estávamos desenvolvendo, em cooperação com o Fundacentro do Ministério do Trabalho e por outro lado os empresários das subcontratadas preocupados com lucros. 

Nós nos confrontávamos concorrendo com os estrangeiros no mercado de mergulho petrolífero  “off shore” que até então era a nossa principal e quase única fonte de trabalho.  Nesta hora só mesmo um profissional de espírito empreendedor como o meu amigo Castello, seria capaz de nos oferecer esta opção entre outras oportunidades de trabalharmos.     Diversificou nossa atividade também para um  documentário submarino, com a independência da iniciativa privada e a liberdade para usarmos e comprovarmos o nosso potencial profissional com toda aquela segurança e técnica operacional  que tanto reivindicávamos como: “Normas de segurança de trabalho da nossa Atividade Profissional.                                                                                                                                

O  mergulhador Julio Castello usando do seu discernimento e seus conhecimentos havia negociado alguns empresários sérios como: os das Empresa Hernandes Pinturas Anticorrosão e a Hernave Marítitima Ltda, junto com o acompanhamento do comandante Max Justos Guedes diretor do Departamento de Museu Naval e o Arqueólogo Subaquático Luis Fernando de Castro Cunha, entre outros que investiram neste seu projeto do documentário com características do naufrágio do “Príncipe das Astúrias” que sempre foi a sua “Menina dos olhos e dos mergulhadores Profissionais consciêntes da Cultura Arqueólogica e Marítima.                                                                                                                                                                 

A sua confiança na nossa capacidade profissional foi fundamental no desenrolar e no sucesso desta operação que é um destaque no  meu Currículo Profissional.   
É uma pena não contarmos ainda com as presenças dos nossos saudosos amigos e colaboradores que já não estão entre nós com as suas declarações para este site.                                                                                                                                     
O estudioso, supervisor e fotografo submarino Raul Cerqueira (ex-presidente fundador do nosso Sindicato) e  nosso saudoso e extrovertido profissional Roberto Guerreiro (mergulhador profundo). 

     
O convite e a proposta para minha atuação neste projeto foi, que para em conjunto com o Raul Cerqueira e ele mesmo Julio Castello Branco desenvolvêssemos os projetos e as montagens dos equipamentos necessários no empreendimento, bem como também dos procedimentos para a delicada operação que era a  deste trabalho a mais de 40 metros, sujeito as  possíveis doenças descompressivas e até aos efeitos das narcoses pelo nitrogênio do ar nestas profundidades. Mergulho este numa região perigosa que é a Ponta da Pirabura no local mais exposto da Ilha Bela levando-se em conta que este ponto é o mais extremo a sudoeste e sujeito as bruscas mudanças atmosféricas e oceânicas do litoral entre o Rio e São Paulo.
O local exato dos destroços no fundo chega a poucos metros de afastamento de um penhasco de granito vertical e liso que vem direto da profundidade de 40 metros e aflora á aproximados 30 metros acima do nível do mar na ponta da ilha. 

As estratégias de fundeamento  e estaiamento da embarcação com esta profundidade e proximidade do costão rochoso, eram complexas e visaram garantir, sem incidentes um ponto seguro de base e apoio nas  operações de mergulhos.  Caso contrário estas manobras seriam de grande risco, já que estas excursões submarinas poderiam envolver períodos de descompressões na subida dos mergulhadores até a superfície, numa mudança repetina do tempo.  

                                                                                                          
O documentário foi feito sem nenhum dano ou alteração ao “Sítio Arqueológico“, foram feitas muitas descobertas registradas por fotos, colhidas informações e  também foram feitas marcações que serviram de referências para um mapa do "Croquis", situação dos destroços no fundo, já que por vezes estes encontram-se totalmente soterrados.  Com a nossa insistência vencemos as adversidades criadas pelas fortes correntes no fundo que continuamente alteravam o perfil daquele leito de relevos dinâmicos.    Estas derivações que variavam, de um dia para outro, expunham parte a parte dos destroços, variando também de tipos de assoreamentos:  Quando arenosos eram claros com a visibilidade que apresentavam um cenário deslumbrante deste sítio (3 à 4 mts), e quando lodosos eram tão escuros que o transformavam num ambiente tenebroso. Nestes casos, só mergulhávamos sem correnteza e ainda era  delicada a aproximação do leito sem levantar uma densa suspensão que inviabilizava a exploração visual e desperdiçava  longos períodos do tempo de fundo.
Graças ao profissionalismo e empenho de todos que executaram o projeto, o resultado foi um "Impecável Sucesso"  recebendo até elogio do próprio Museu Histórico Naval da Marinha, sendo que doamos todas as peças que foram achadas, em perfeito estados.

Agradecido pela participação nas operações e apresentação do relato da data que completaram os 93 anos do sinistro.

                   Antônio Manoel Schellekens Drummond

 Mergulhador Profissional e Supervisor Raso e Profundo em regime de Saturação. 

 

Site: http://www.sintasa.org.br/



Embarcação em manobras com a base na Ponta da Pirabura, no local do naufrágio Príncipe das Astúrias - em 1956
Manobras de bóias, na base de apoio logístico e de operações de mergulho nos ano 1956
Vista da base de operações e acomodações dos Mergulhadores de 1956.
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