Ubiratan de Lemos - em foto antiga da Revista O Cruzeiro
Adolpho Melchert de Barros - comanda os trabalhos de recuperação
As primeiras notícias do naufrágio, recortes de - a noite - referem-se ao afundamento do navio
Indalécio Wanderley
Nos bom dias, Werner permanece até dez horas trabalhando no fundo
O principe das astúrias deslocava 17 mil toneladas e era o orgulho da Marinha Mercantil Espanhola
Os mergulhadores arriscam sua vida em cada mergulho
Os trabalhos de recuperação dependem exclusivamente do mar
Toneladas de estanho já foram retiradas dos escombros
Werner é o melhor e o mais desassombrado mergulhador brasileiro
A 35 metros de profundidade, dois repórteres de O CRUZEIRO visitam os escombros do transatlântico espanhol "Príncipe de Astúrias" - 1 bilhão e 200 milhões de cruzeiros em toneladas de humbo cobre e estanho - História do narufrágio dramático do navio que era o "faixa-azul" da linha sul-americana - impressões sobre o mundo líquido, povoado de destroços, peixes e furnas.
Texto de UBIRATAN DE LEMOS e FOTOS DE INDALÉCIO WANDERLEY
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Ponta de Pirabura, abril, 1956 - Um bilhão de duzentos milhões de cruzeiros, no mais fabuloso tesouro submerso (e conhecido) da América Latina, estão sendo retirados do fundo do mar, a cento e dois metros da costa paulista, nesta Ponta de Pirabura, que dista cento e quarenta quilômetros de Santos. Essa fortuna está em forma de toneladas de estanho, cobre e chumbo, a parte mais considerável da carga transportada pelo "Príncipe de Astúrias", naufragado nos idos de 1916.
Muito embora haja a informação de que em seu cofre estão guardados oito milhões de estelinos, a aventura da milionária "pescaria" tem como principal objetivo a retirada da carga pesada, difícil tarefa que já provocou a mobilização de doze milhões de cruzeiros em máquinas e obras de engenharia, além de exigir muita paciência, sangue-frio e coragem. Sem intenções ufanistas, lembramos que o capital e os homens empenhados nessa façanha são brasileiros.
Quando chegamos ao acampamento, éramos praticamente leigos em mergulhos a grande profundidade. Savíamos da existência do aqualung, usado pelos homens-rãs, e que consta de um, dois ou três cilindros de ar, de um regulador munido de válvulas e um bocal que o mergulhador morde e por onde ele suga e expele o ar.
Não era exatamente êsse o aparelho que Indalécio e eu iríamos usar, mas um narguilé, um misto de escafandro e aqualung. Ao invés de cilindros, tubos de matéria plástica ligados a comrpessores. Um sistema que, se não dá autonomia dentro da água, permite que lá se permaneça o tempo desejado.
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Milhões de cruzeiros retirados em toneladas de cobre e chumbo dos porões do luxuoso transatlântico espanhol "Príncipe de Astúrias"
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O nosso barco de mergulho balançava-se entra a bóia e o costão da Ponta de Pirabura. à Flor da água, aparecia o rochedo que afundara o transatlântico espanhol. Entre 30 e 40 metros abaixo da superfície, respousavam os restos do barco. Perdi o par-ou-impar e tive de mergulhar primeiro. Seguia as instruções de Werner Krauss, chefe da "equipe" de mergulhadores, e o "ás" dessa profissão no litoral brasileiro. Esfreguei fumo de cigarro no vidro da máscara para evitar embaçamento. Ajustei-a ao rosto, pois qualquer brecha daria passagem à água.
Desci a escada de ferro com a sensação de quem vai para a fôrca. Mas, a água estava deliciosamente morna. O aparelho funcionava bem. Prendi-me ao cabo-guia, que Werner amarrara aos escombros. Submergi três metros, parei e olhei para cima. Vi o casco do barco de mergulho coberto de mariscos superpostos.
A outo metros, os ouvidos doeram. Fiz a descompressão, amassando o nariz contra a máscara. O ar comprimido dentro produziu o estalido de alívio. A dez metros, a aágua começou a amarelar. O som do ar saído do meu regulador fazia um "gluglu" reconfortante. Tinha mais mêdo de que o aparelho enguiçasse do que de ver um tubarão. O mar estava cheio de partículas, neblina submarina constituída por microrganismos. A quinze metros, parei e descomprimi novamente os ouvidos. Olhei para cima e via as bôlhas subindo, rumo ao que parecia um grande espelho emborcado: a superfície do mar. Já então o amarelo ficou mais denso. Tive a impressão de mergulhar em suco de laranja. Coloquei a mão na frente da másara e vi meus dedos vagos. Aos vinte metros, entrei num tinteiro de nanquim... Era uma espécie de noite líquida e achava-me sepultado dentro de uma camada fria, salmoura que calculei entre 10 e 15 graus centígrados. Aos vinte e cinco metros, não consegui descomprimir o tímpano esquerdo. Também não pude retirar a água que penetrara na máscara, o que se consegue virando o rosto para cima e expelindo o ar pelo nariz. Regressei à tona tateando, no escuro, mas sem dificuldade. Refreei o impulso de flutuação, enquanto o ar saía aos jorros de minha garganta. Acumulara 10 a 18 litros de ar nos pulmões, pormenor da fisiologia do mergulho que evita o "abraço de tamanduá" da profundidade. Nesse mergulho, não vi peixe, nem destroços. Apenas amarelo, prêto, borbulhas, num ambiente 800 vêzes mais denso que a atmosfera.
No dia seguinte, fizemos mergulhos em água clara. É um mistério o caso da transparência do mar. Às vêzes, fica claro em cima, escuro embaixo e vice-versa. A água escurece ou se torna clara por enquanto, em alto-mar ou a cem metros do litoral, como estávamos. Mas é a água clara que faz maravilhoso o fundo do mar.
- A água está boa. Nessa época do ano não dá água melhor, em Pirabura - havia informado Werner.
Indalécio preparou sua câmara robot submarina. Mergulhamos os dois. Atravessamos dez metros de cristal líquido, com excelente visibilidade até trinta metros horizontais. Dos quinze metros em diante, o mar tomou um tom discretamente leitoso. Aos trinta, tínhamos um horizonte de três metros. Paramos junto ao nó do cabo-guia, para não flutuar. Indalécio nadou rumo a uma floresta-"mignon", de formação coral, que cobria chapas do casco do navio. Olhei para o buraco enorme, aberto por Werner, a maçarico, no casco. Dali, em cardumes, saíam peixes de desenhos variados. Soltei o cabo e fiquei rodando em tôrno dêle. Senti uma sensação de vôo, de domínio e de inteira satisfação. Bisbilhotei as chapas cobertas de matéria orgânica. Seria necessário raspá-las para saber que se tratava de uma carcaça de navio. Robalos, chernes, garoupas, parus e um peixe fino e transparente, cujo nome não sei, recepcionaram o fotógrafo e a mim, desconfiados. Voamos os dois sôbre cantoneiras, longarinas, cavernas, anteparos e arrebitos - ferros retorcidos pela explosão das caldeiras do navio e pelas bananas de TNT. Ali, a gravidade estava de cabeça para baixo. Dançávamos um "ballet" em câmara lenta. Virávamos de papo para cima. Evoluíamos como um pilôto de provas no céu de cima, embriagados de magnífica euforia e envolvidos por uma luz macia de madrugada. Equanto eu trocava pernas, Indalécio caçava ângulos fotográficos. Lutava com dificuldade, porque a visibilidade não ia além de três metros. A côr baça do fundo confundir-se-ia, no filme prêto e branco, com o cinza-escutro do casco e tonalidades outras correlatas. Outro problema era o de conseguir estabilidade, só possível com longa prática de mergulhos. Teria que dosar o ar dos pulmões - que funciona como lastro - a fim de obter o equilíbrio indispensável para bater as fotografias.
Lembro-me que Indalécio se aproximou de mim, com a intenção de fazer um close-up. Tive uma crise de riso. Ri porque o rosto do meu amigo triplicou dentro da máscara, cheia de água. O ar escapou do meu boacal, criando bolas de gude.
Indalécio viu minha m;áscara também encher-se de água. Riu sem parar. Depois, confessa-me:
- Pensei que tu ias morrer. De repetne, verifiquei que eu também estava rindo e que poderia afogar-me.
Foi um momento difícil, tratei de esquecer o nariz, pois, se procurasse respirar, a água penetraria pelas narinas e poderia sufocar-me. Com calma, procurei atingir a tona, expelindo aos poucos o ar dos pulmões. Já no barco, refeito do susto, lembrei-me do que tinha lido sôbre Costeau e Dumas, pioneiros do aqualung e recordistas de noventa metros de imersão. Falam da "bobeira da profundidade", efeitos oníricos que atacam os mergulhadores a partir da zona em que afundamos.
É a narcose causada pela absorção do nitrogênio, gás que entra em 78% na composição da atomosfera. Aparece como suave entorpecimento e culmina com a euforia total e a loucura. Sob os efeitos dÊsse êxtase, o mergulhador pode arrancar a máscara e entregá-la a um peixe... Maurice Fargues - companheiro de Dumas e Cousteau - trocou a vida por um recorde de aqualung.
Morreu a 120 metros, depois de deixar o seu nome escrito numa tabuleta branca, amarrada na extremidade do cabo-guia. Encontraram-no a 45 metros, com o bocal pendido da bôca. A diabólica alegria transtornara a mente do mergulhador francês, fazendo-o cuspir o bocal. O que se chama curvatura é outro castigo do mar aos seus violadores. Sob a pressão, o mergulhador não expulsa tôdas as partículas de nitrogênio, que são assimiladas pelo sangue e cartilagens. As bôlhas de nitrogênio entopem as veias e interceptam a circulação do líquido cefalorraquidiano, podendo até provocar a morte. O meio de evitar curvaturas é permanecer dez minutos a seis metros da superfície e outros dez a três metros para o organismo expelir o gás.
Mergulhamos outra vez, com Werner de cicerone. Conduziu-nos aos trinta e cinco metros, através do buraco prêto que o içamento de uma chapa de doze toneladas abriu no costado do navio. A princípio, recusei entrar na abertura. Temia enganchar-me. Mas acabei aceitando o risco. Lingotes de chumbo, cavernas, o eixo de barco, nuvens de peixe voando sôbre os destroços, que exibiam pontas afiadas. Bastaria tocá-las para o sangue escorrer verde, tonalidade do bermelho a trinta e inco metros de imersão. Não se sente o ardor, dentro da água. Só depois, na superfície, a dor acusa o ferimento.
Se roçávamos a areia, a poeira subia como fumaça. Bati os pés de pato sôbre grutas, pedras, vegetação rasteira e algas. Adejei sobre paisagens, como um pássaro sem penas. Palavra de honra que tive vontade de fumar um cigarro e pedir um copo de uísque a uma garoupa. Não havia comido os odis quilos de carne recomendados a um mergulhador para adquirir calorias, nem coloquei tabletes de acetato de cobre, nos pés, para afugentar tubarões. Mas fiquei humilhado quando soube que, na Ilha Djerba, ao largo da Tunísia, mergulhadores de dezesseis anos afundam a quarenta metros, para apanhar esponjas, em imersões de dois minutos e meio. De peito aberto!
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Vinte e uma pessoas e uma cadela preta são a humanidade da Ponta de Pirabura. Durante dezesseis dias, ali vivemos. O tuxaua do clã é o semiquarentão Adolfo Merchert de Barros, que tem 118 centímetros de tórax e vários litros de sangue paulista. Há três anos se tranportou par ao rochedo, e com uma férrea vontade: recolher os restos do "Príncipe de Astúrias". É um homem feito de rocha e fé, que dormiu sôbre granito, agüentou borrachudos (mosquitos noturnos cantadores) e o epíteto de "poeta", que os amigos lhe davam. Mas, a sua poesia era o manifesto do "Príncipe de AStúrias", acusando 4.500 toneladas de cobre, 1.700 toneladas de estanho e 800 toneladas de chumbo. Tôdas as suas economias êle as inverteu na emprÊsa temerária. O Cel. Nelson de Aquino e René de Roa Nieto eram os seus sócios. Desde então, não teve mais sossêgo. Daria um livro a história dos trabalhos de engenharia de terra para a guindagem da riqueza dos porões do navio. Subiram a penhascos de quase 90 graus, a tração de bíceps, guincos de 2.800 quilos, tôrres de 5 toneladas e grandes estirões de ferro fundido. Cargas de dinamite deslocaram pedras e abrirarm o espaço onde hoje existe o acampamento.
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Mais de 12 milhões invertidos para a recuperação submersa
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Se não fôsse o cavaquinho do Amadinho, mestre de lancha, Putabura seria uma "sing-sing" voluntária. À noite, cantam modinhas do tempo do onça. Nos dias em que é impraticável o mergulho, o "hobby" é a pesca. É bota o caniço na água e puxar "ôlho-de-boi", garoupa, xarcicie. "Vermelho" é peixe que se arranca do anzol e se devolve ao mar. Não vale a isca que engole.
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Werner Krauss é um sujeito meio peixe, pois vive entre a tona e um bom mergulho. Tem quase 36 anos e desde os 15 conhece o fundo do mar. O pior mergulho que já deu foi no SOlimões, na Amazônia. Afundou na água barrenta, para salvar uma mulher e uma criança. Outra vez, faltou-lhe o ar, na Baía de Guanabara, quando ajudava a içar um avião com manias de submarino. Aliás, Wener faz bem duas coisas: mergulha e sonha. Vive afenturas com os olhos abertos ou fechados. A frase mais comum em Pirabura é: se sair o estanho. Pois, se sair o estanho (que custa 300 cruzeiros cada quilo) Werner comprará um navio, o "Sea Ghost" ("Fantasma do Mar"), construído na Noruega ou na Alemanha. Irá à Índia, aos Mares do Sul e comerác om pauzinhos, no Japão. E, sobretudo, mergulhará nos Sete Mares. Onde ninguém tem coragem de meter o dedo, Werner mergulha. Se um motor enguiça, se a tubulação da bomba de sucção entope, se o cabo de aço arrebenta, se alguém se fere e precisa de curativos - Werner entra em ação. É homem dos sete instrumentos. Gosta de lua-cheia e de um serão regado a cachaça, bom papo e limão.
Diderot de Brito, outro da "equipe", trocou o microfone (era locutor em São Paulo) pelos mergulhos do casco do navio. Sua principal singularidade é um dente que "dói" tôdas as vêzes que êle quer ir a São Paulo falar com a noiva.
Já apareceram em Pirabura exemplos outros de mergulhadores. Adolgo Banné surgiu no rochedo com a legenda recordista de 300 metros. Deram-lhe serviço. Depois de afundações curtas, ele botou tremendo. Nunca mais voltou ao fundo.
Outros, alcançando o chão submerso, faziam a sesta, deitados sôbre os escombros. Davam a idéia de que estavam trabalhando. Certa feita, um dêles teve que mergulhar a pulso, sob a ameaça do cano de resólver do sócio de Barros. Nesse dia, o escafandrista malandro arrancou toneladas de material.
A vida escorrega monótona, em Pirabura, principalmente depois que sumiu no mar o pingüim vindo da Antártica para o rochedo. Era bem tratado e todos os dias contava com bons peixes para o seu bico. Fizeram-lhe uma casa. Acostumou-se a comer na mão e resolveu não mais mergulhar em busca do sardinhas. Quando alguém puxava um peixe, êle se aproximava beliscava a perna do pescador, exigindo o regalo. Duas ou três vêzes por dia comia o seu pêso em peixinhos. Virou mascote. Mas saiu para dar uma voltinha e nunca mais voltou.
Dia de ressaca no rochedo é o dia em que não se pode mergulhar. Isso acontece quando a ressaca é forte e não permite, sequer, a atracação do barco de mergulho. Nesses dias, o acampamento lembra um convento. No inverno, durante uma quinzena, quando muito, se consegue mergulhar um dia. É quando Werner usa a bomba de sucção para retirar os entulhos dos porões. Às vêzes, não trabalha mais de uma hora, por que o mar escurece de súbito. Dias depois, encontra os porões novamente entulhados...
A grande quadra do ano é o verão de sol aberto, de ventos bons, de dias de trabalho fecundo, quando é possível retirar até dez toneladas de material, numa jornada de trabalho. depois de localizado e retirado o estanho, Barros procurará a caixa-forte da proa, onde se espera encontrar 9 milhões de esterlinos e uma estátua gigantesca de San Martin. Êsse detalhe não preocupa os mergulhadores. Desejam recuperar o que consta no manifesto do navio, e não reviver o tesouro do Conde de MOnte Cristo. Realmente, será esta a primeira vez na história de tesourus submarinos, que um grupo enriquecerá. Não sem grandes sacrifícios, perseverança, garra e risco da própria vida.